Carta Manifesto
Acordei e, como tem sido de costume, peguei a Belezinha, minha companheirinha de caminhadas, uma doguinha idosa, e fomos apreciar a mini florestinha que tem no condomínio onde estou passando um tempo.
Passado o tempo de entrar no ambiente, rito que adquiri com as práticas de Shinrin Yoku e que mudou minha capacidade de percepção, naturalmente comecei a interagir com a natureza ao redor. Apesar de ser um espaço pequeno, não deixa a desejar.
Tem um pé lindo de mangueira, frondoso, árvores lindas de pitangueira, abacateiro, pessegueiro, ameixeira, pinheiro, bananeira, costela-de-adão, gramado com flores de grama, orquídeas, alfazemas e camélias. Toda essa flora é vizinha de um pedaço de túnel verde ainda em pé entre a Dr. Pereira Neto e a Av. Otto, na Zona Sul.
Aqui, tenho o privilégio de escutar e observar diversos tipos de aves, desde o João-de-barro, beija-flor e urubu até um casal de carcarás que, outro dia, era possível observar rasgando o couro de sua caça.
Qualquer tempo nesse lugar é suficiente para recarregar as energias, que é o que costumo fazer com interação e observação.
Infelizmente, hoje, quando me dirigi ao jardim, me deparei com um ato que alguns chamam de jardinagem, mas eu, naquele momento, não consegui enxergá-lo dessa forma.
O que vi foi o solo arado e várias plantas que faziam parte daquele pequeno espaço sendo retiradas. Talvez existissem razões para aquela intervenção que eu desconheça. Mas, diante do que encontrei, não pude deixar de pensar sobre a maneira como nos relacionamos com a natureza que está ao nosso redor.
Fui acometida por uma surpresa muito desagradável, pois vinha, há tempos, criando uma conexão com aquela ilha verde dentro do jardim.
Hoje, quando me deparei com o solo arado e a subtração de várias plantas que viviam ali, arrancadas e retiradas daquele espaço, me subiu um misto de tristeza, raiva e cansaço, por conta desse distanciamento que as pessoas têm dos ambientes naturais.

Talvez existam outras formas de pensar o manejo desses espaços, considerando não apenas o que precisa ser retirado, mas também a melhor destinação para aquilo que ainda pode ter vida e utilidade. Uma poda, quando possível, o transplante ou até mesmo a doação de plantas poderiam ser alternativas a considerar. E, depois de uma intervenção como essa, também me parece importante pensar na nutrição e na recuperação do solo.
Não sei quais foram as razões daquela intervenção, nem tudo o que foi considerado antes dela. Mas foi justamente o que encontrei que me fez pensar sobre a maneira como nos relacionamos com a natureza que está ao nosso redor.
Talvez a minha reação diga tanto sobre mim quanto aquela intervenção diz sobre a forma como ocupamos os espaços. Depois de aprender a observar, percebo a natureza de outra maneira. Comecei a olhar para aquelas árvores, plantas, flores, aves e pequenos movimentos daquele lugar como parte de uma vida que acontece ali, e não apenas como algo que está disponível para ser organizado conforme a nossa conveniência.
É aí que minha inquietação começa.
Porque talvez a questão não seja apenas o que foi feito naquele jardim, mas a ideia que pode estar por trás de tantas pequenas decisões: a de que a natureza está aqui para servir às nossas necessidades, ao nosso gosto e ao nosso conforto.
E essa lógica pode aparecer em diferentes escalas.
No jardim de um condomínio, quando retiramos aquilo que passou a incomodar.
Na cidade, quando escolhemos o concreto onde poderia existir uma árvore.
Nos empreendimentos, quando a vegetação e os animais precisam dar lugar ao que consideramos mais útil ou desejável.
E, em uma escala muito maior, na derrubada de florestas e na ocupação de territórios naturais como se fossem espaços vazios à espera de uma finalidade.
Não estou dizendo que essas situações sejam iguais. Não são.
Mas me pergunto se, em alguma medida, elas não partem da mesma distância: a dificuldade de reconhecer que a natureza não é apenas cenário, recurso ou espaço disponível para o nosso uso.
Talvez seja por isso que aquela pequena ilha verde tenha me incomodado tanto.
Porque, quando começamos a perceber a natureza de perto, fica mais difícil tratá-la como pano de fundo.
Essa conversa poderia seguir por vários caminhos.
O que eu faço com o ambiente só porque posso pagar?
Qual o sentido de um ambiente natural dentro de espaços de convivência?
Eu tenho proximidade com a natureza à minha volta? Se não tenho, o que me impede?
Como eu vejo a natureza à minha volta? Que sentido eu dou para ela?
Sua casa, a natureza e você: como se conectam?
Por fim, que tipo de relação você tem com a natureza? E o que você pensa que essas questões têm a ver com a crise climática?
Mas precisamos fechar essa carta/conversa de desabafo.
Então, registro aqui meu lamento, não como alguém que acredita ter todas as respostas, mas como alguém que se incomodou ao perceber mais uma vez como é fácil nos colocarmos do lado de fora da natureza.
Sim, sempre teremos uma relação que, em algum momento, é de troca.
Minha atenção é para que possamos lembrar que fazemos parte da natureza.
Somos natureza.
E, se ela adoece, adoecemos também.



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